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segunda-feira, 25 de maio de 2009

UM CONTO PARA LARISSA

O cavalo Tordilho corria no campo, alegre e feliz, pois era domingo. Ele não estava com os arreios atrelados. Isso significa dia todo sem puxar carroça ou sem carregar ninguém nas costas. O sol recém-nascido brilhava como ouro no céu, até parecia a colcha de seda azul que a senhora havia lavado e estendido no varal um dia antes. Como brilhava o azul da colcha exposta ao sol.
Tordilho vendo o azul da colcha espalhado no céu ficou feliz. Galopava, troteava, marchava, num vai pra lá, vem pra cá, sem parar! De repente para assustado. Para e pensa com as pequenas peças de arreios que estão na cabeça:
“Tem alguma coisa no céu. É uma estrela! Será uma estrela? De dia? Que estrela mais louca! Olhem quantas pontas tem aquela estrela.” Ficou de queixo caído com a visão de estrela de dia. Mas continuou a passear pela coxilha. De vez em quando espiava o céu para ver se a estrela continuava lá, dependurada, bem baixo, no céu azul de colcha de seda.
Os pássaros cantam alegres! Voam de galho em galho, nos pinheiros, nos butiás, nas macieiras. Muitos, muitos pássaros! O cavalo acha que alguma coisa está errado com os pássaros: sacode as orelhas, uma pra frente outra pra trás. Para, fica a observar.
Tenta chegar a uma conclusão:“Passarinho com asas de nuvem? Onde já se viu? Só porque sou um cavalo de trabalho? Só porque é domingo estou vendo coisas?” Tordilho parou de galopar, ficou em silêncio debaixo do pé de prata. Só olhando., olhando para o céu.
Um avião que vem vindo lá das bandas de Buenos Aires chama a atenção do cavalo e dos passarinhos, com os olhos fixos na estrela que parece estar pulando de raiva. Tordilho e os passarinhos de asas de nuvem ficam espantados com o que está acontecendo no céu:
A estrela está braba porque o avião passou no caminho dos fios das raias com as quais ela estava brincando. Raias lindas! Coloridas, com rabiolas cheias de lacinhos. E as rabiolas estão caindo lá do céu.O avião continua voando, voando, indo lá pros lados de Curitiba. As raias presas nas asas do avião vão embora com ele. A estrela de tão triste ficou com as pontas tortas, fora de lugar, e está desaparecendo devagarinho, devagarinho. Está indo embora tão devagar que Tordilho quase dorme olhando pra ela. A estrela acaba sumindo e o céu fica só que um azul de seda novamente.
O cavalo agora descansado e tranqüilo vai à procura de moitas frescas bem verdinhas para fazer um lanchinho gostoso, natural e digno de um cavalo de trabalho, em plena folga de domingo.
Escolheu uma touceira de capim fininho e foi chegando à moita, já sentindo o sabor do capinzinho fresco e macio. Quando um dos passarinhos de asas que parecem nuvens sai desesperado da moita Tordilho derruba o queixo novamente.
Na moita escolhida havia um ninho dos passarinhos estranhos. Não era um ovo nem um passarinho que dormia na moita. Era um anjinho, com rodela na cabeça e tudo! Os pássaros, que eram três, se colocaram entre o anjinho e o cavalo para protegê-lo contra Tordilho.
O cavalo que não fazia mal a ninguém muito menos a um anjinho ficou triste. Baixou as orelhas em sinal de servidão como é acostumado a fazer com seu dono quando ele vem com os arreios para atrelá-lo à carroça, ou para levar seu dono em seus caminhos de fazendeiro. Sempre dócil resignado e paciente.
Enquanto isso o anjinho foi se espreguiçando, espreguiçando. Se esticou todinho, se pôs em pé, olhou para Tordilho, procurou por alguma coisa que estava no chão. Se abaixou e pegou um arco com uma flecha dourada que mostrou para o cavalo. Tordilho relinchou assustado:”É uma flecha!” Pensou: ”Que faz um anjinho com uma flecha?”
Mas Tordilho é um cavalo esperto. Lembrou de um calendário pendurado no paredão do paiol, com a figura de um anjinho sapeca que se chama Cupido. E todo mundo sabe que esse tal de Cupido é responsável por acertar os corações com as flechas do amor e das paixões.
Agora é que Tordilho ficou mais perplexo! “Que é que o Cupido estaria fazendo ali domingo à tarde? Sem viva alma humana naquele pasto?” Cupido, muito inteligente, compreendeu a aflição do cavalo. Tentou explicar tudo:
- Cavalo Tordilho, é esse seu nome, não é ? Como vês todos estamos aqui neste lugar de completa paz. Por enquanto, diga-se de passagem, pois logo os homens vão transformá-lo em pastagens. Todos somos iguais às crianças da terra. E como não havia ninguém aqui, nem humano nem celeste para brigar com a gente, resolvemos parar para brincar um pouco. Brinquei tanto com aquela estrelinha danadinha e meus amigos passarinhos de Júpiter que resolvi dormir um pouquinho. Aí você apareceu. Quer brincar conosco?
Ao que Tordilho respondeu:
- Epa! Sou muito grande! Vou acabar machucando vocês! Me deixem ficar aqui perto vendo vocês brincarem?
- Tá bom. Se quiser, pode ficar aqui , concordou o Cupido.
Tordilho saboreou a moitinha escolhida e se espalhou sobre a grama fresca debaixo do pé de prata. Passarinhos pra cá, anjinho pra lá. Algazarra no pé de prata, no pasto, na sanga. Afinal, eram crianças brincando! O tempo passou, O cavalo acabou dormindo. E o anjinho e os passarinhos foram embora.
Ao anoitecer, um peão da fazenda foi buscar Tordilho para colocá-lo na baia e deixar tudo pronto para a segunda-feira cedo.
Tordilho ficou triste quando percebeu que tudo tinha sido um sonho de cavalo velho e cansado da lida. Resignado, de cabeça baixa, foi obedecendo ao peão que puxava a correia do cabresto com força.
Passou pelo varal e lembrou da cor da colcha de seda azul de céu. Olhou outra vez e viu no varal um daqueles passarinhos deixando uma pena de nuvem presa num prendedor de roupas, fazendo sinal para que Tordilho não esquecesse deles. O cavalo fez sinal de resposta pedindo ao passarinho que prendesse a pena na sua cabeça, nas tiras dos arreios.
Quando entrou no paiol a caminho da baia passou pela parede onde está dependurado o calendário e ficou feliz. A semelhança da figura com o cupido da coxilha era tanta que não teve dúvidas que estiveram juntos na tarde de domingo.

Stela Siebeneichler

domingo, 24 de maio de 2009

A AMIZADE, O CAMINHO, O LEQUE



Sentada na escada da varanda, Yumi aguardava a chegada da mãe que fora para a venda ajudar a seu pai na organização dos mantimentos recém chegados da ultima encomenda. Yumi , tranqüila, pega sua flauta e toca uma música que fazia tempo não executava . De vez em quando parava , ficava em silêncio , tentando ouvir algum ruído diferente que viesse junto ao farfalhar das folhas do bambuzal. Tinha a esperança de que a raposa Lin, viesse para uma visita, pois fazia tempo que o filhote de raposa não aparecia para contar como estava bonito o bambuzinho, que já não era mais um brotinho, mas um jovem e esbelto bambu. Ou para contar como está indo em seu novo estágio de treinamento para as transformações a que todas as raposas devem se submeter até estarem prontas para qualquer transformação necessária em suas vidas mágicas.
Yumi se sentindo forte e corajosa resolveu se aventurar pela estradinha que leva para o lado do bambuzal. Com o vento soprando suavemente, batendo com a força de uma brisa leve com cheiro de flores de pessegueiro e folhas de bambu no rosto da menina, ela avança despreocupada rumo ao bambuzal. A estradinha seguindo seu curso que acompamha a plantação de pêssegos desvia do bambuzal afastando Yumi de casa e também do seu objetivo que é chegar perto do bambuzal. E se tiver sorte, encontrar Lin e conhecer o jovem bambuzinho, outras raposas, ouvir de perto os pássaros cantores , dos quais Lin já falou tanto.
Yumi segue segurando forte em sua mão a flauta, como se ela conhecesse o caminho de tanto transformar em música o sopro da Yumi na direção do bambuzal. De repente o caminho se abre em dois, um seguindo seu curso normal. O outro abrindo conforme a vontade de Yumi e seus passos dirigidos pelo vento e o cheiro de bambu, agora só de bambu pois a plantação de pêssegos já ficou para trás.
O farfalhar das folhas penetra forte nos ouvidos da menina. O bambuzal é maior que a imaginação de Yumi. Quanto mais ela anda mais se embrenha em seu interior. Sentindo insegurança, está aflita. Seus pés pisam a folhagem áspera e cortante, não sentem mais o caminho. Em desequilíbrio cai. Chora . Chama por Lin.
- Lin! Você está aqui? Estou perdida! Tive vontade de conhecer o bambuzal mas perdi a direção e também o caminho. Como voltarei para casa? A raposa Lin atende de pronto ao pedido de ajuda da amiga Yumi.
- Estou aqui pertinho de você. Vem comigo. Vou te mostrar meu amigo bambu!
Lin oferece a mão de menino para a garota e com ela segue pelos carreiros dos animais que moram ou transitam no bambuzal.
- Que foi que aconteceu para você sair assim sozinha de casa?
- Me senti sozinha e sempre tive vontade de saber como é um bambuzal... Você sabe que para mim saber como é alguma coisa , preciso tocar, sentir. E além disso já estou bem crescidinha para fazer alguma coisa que eu queira. Cheguei aqui, mas agora não sei voltar para casa. Isso não preocupou Yumi por muito tempo. Lin prometeu que a ajudaria a voltar para casa. Lin chegou com a menina bem pertinho do amigo bambuzinho.
-Yumi, coloque a mão aqui no toco do bambuzinho, sinta como ele está grande e forte! Ele também está muito alto!
-Amiga, toque uma música na tua flauta - pede o bambuzinho. - Todos aqui ouvem a tua música com muito gosto, até os pássaros param de cantar para te ouvir.
Yumi toca a música que ela mais gosta e logo vão chegando mais raposas para ouvi-la. A raposa mãe de Lin está entre elas. O bambuzal está em festa! A mãe de Lin fica espantada com a perfeita transformação do filhote em menino.
- Lin , você conseguiu! Não tem nenhum sinal de raposa em você! Não ficou aparecendo o rabinho , nem pedacinho de orelha! Essa menina é quem te ajudou a se concentrar para se transformar assim tão perfeitamente. Tenho um presente para ela!
E foi tirando de algum lugar de seu corpo mágico , um bonito leque feito de bambu lascado e seda colorida. Colocou-o nas mãos de Yumi com recomendações de cuidados e prometeu que ela ainda seria uma pessoa muito feliz e a beleza seria constante em sua vida:
- Menina, este leque é mágico! Conforme você for abanando seu rosto com ele irá apagando as sombras que ocultam a luz da tua vida.
Yumi , feliz, agradece e despede de seus novos amigos com mais notas musicais. Depois guarda a flauta no bolso e procura a mão de Lin para que ele lhe mostre o caminho de volta.
- Você não precisa de minha mão, mas de teus pés no caminho. Sinta como você esta andando com segurança! Abane o leque na frente de teus olhos. O leque vai te mostrar a luz e eu estou transformado em caminho para te conduzir até a tua casa , como te trouxe desde a curva dos pessegueiros.
O farfalhar do bambuzal com canto de pássaros virou música de despedida para Yumi que foi caminhando bem devagar até chegar em casa já bem cansada e ficar por mais algum tempo sentada na varanda esperando que sua mãe volte da venda, tocando em sua flauta músicas bem alegres em agradecimento à raposa Lin por tê-la conduzido em sua viagem até o bambuzal e depois se tranformar em caminho novamente até que ela chegasse em casa.
Guarda a flauta num dos bolsos e tira o leque do outro bolso balança-o em frente aos olhos demoradamente O ar refrescante que sai do movimento do leque acaricia seu rosto e penetra em seus olhos.
O sol se põe atrás do bambuzal. Yumi vê na curva dos pessegueiros a mãe chegando.

Stela Siebeneichler (sequência imaginária de "Lin e o outro lado do bambuzal", fábula infanto-juvenil criada por Lúcia Hiratsuka)

DEPOIS DAS 1001 NOITES, MAIS UMA

Mogiana, dada por esposa ao sobrinho de Ali Babá, tornou-se infeliz e desperdiça seu tempo com quimeras. O filho que teve é a sua única alegria, Seu marido , o jovem Assan Babá, é taciturno e também infeliz. Passa seu tempo enfiado nas suas lojas cuidando das riquezas da família, não tem tempo para agradar Morgiana e nem acarinhar o pequeno Hakin.

Ali Babá, sempre esteve a par das tristezas da bela Morgiana, e sabe bem porque ela é triste, Assan tem o amor da bela Mogiana, amor de mãe para filho, pois foi ela quem o amamentou, por isso jamais poderiam viver uma paixão ou mesmo um amor conjugal que os realizasse. Ali Babá, certo dia encontrando a ex escrava e executora dos quarenta ladrões, a passear com Hakin , no jardim de tâmaras, encheu-se de compaixão pela falta de brilho no olhar de Mogiana e perguntou a ela:

- Mogiana , bela mulher e insubstituível amiga e protetora , que posso fazer para que o antigo brilho dos seus olhos reapareça vivas como outrora? Ao que ela respondeu:

- Ali meu antigo amo! Só a liberdade me será favorável pois o amor que dedico a Assan é de mãe. Como pode me desejar! Só Alá pode me livrar desse infortúnio. Ali Babá procura descobrir alguma maneira de alegrar a amiga pois jamais esqueceu as ações da escrava nos acontecimentos da tentativa de assassinato pelo chefe dos ladrões. Um dia acordou cedo e procurou Assan e pediu a ele permição para levar Mogiana e Hakim para um passeio que duraria o dia todo. Assan consentiu. Mogiana fica muito feliz com a idéia e deixa tudo preparado para o dia seguinte. O pequeno Hakin, reclamou de sair para passear sem a presença do pai. Dirigiram-se para o antigo esconderijo dos ladrões. Mogiana, já conhecia as palavras mágicas, pois Ali Babá já a havia levado até o tesouro várias vezes. Ali Babá ordena!

- ABRE-TE SÉZAMO!

E adentram os três. Sempre que estivera no rochedo fora com muita pressa, pois sempre existiu o receio que alguém pudesse estar por perto e descobrir o segredo das palavras mágicas. Mas desta vez Ali babá , que já esta em idade de descansar das preocupações da vida, deixa Mogiana muito admirada e apreensiva com as palavras que lhe dirige quase que em silêncio para não despertar o interesse de Hakin, que apesar de ainda ser pequenino, está estupefacto com as riquezas que tem ante seus olhos.

- Mogiana, Doravante serás a depositária de minha confiança, serás a dona das palavras mágicas! Serás só tu quem poderás proferi-las e adentrar ao interior do rochedo. Só tu poderás colocar as mãos e retirar daqui qualquer objeto, ou qualquer valor. Pois melhor que ninguém sabes julgar as situações e os valores das mesmas . Mogiana aceita a responsabilidade, porém, detém seu olhar sobre Hakin e preocupa-se com seu futuro. Dirige-se a Ali Babá e implora:

- Pela confiança que tenho em ti Ali Babá, entrego-te o futuro de Hakin, visto que Assan Babá ignora, para seu próprio bem e de Hakin, tanto os tesouros , quanto os perigos que nos cercam. Depois de todas as decisões e considerações tomadas, Mogiana finalmente realiza um antigo desejo: examinar tudo aquilo que se encontra no interior do rochedo. Ali Babá fica embevecido ante a curiosidade de Mogiana. Dentro de um cântaro antigo ela encontra um pergaminho ainda mais antigo, uma flauta e um jarrinho que deveria conter algum liquido que deixou vestígios, pois evaporou. Num pequeno baú, colares de pedras negras e de madeiras, de aparência nada valiosa, porque então ali? Sacos de couro de crocodilos com pérolas perfeitas, garrafas com licores desconhecidos, óleos perfumados, moedas e vinhos de todos os lugares do mundo conhecido , com a permissão de Alá, trajes estranhos, riquíssimas porcelanas decoradas a ouro,belíssimas jóias, adagas , lâmpadas, arcos com flechas envenenadas de todos os tipos e formatos, tecidos , plumas , e uma infinidade de vasos e cântaros fechados de maneira a conservar melhor seus conteúdos ... Mogiana , encantada com tanto conhecimento e poder que terá em suas mãos a partir desse dia , e já cansada , dirige-se a o amigo:

- Ali Babá ! Já se faz tarde! Devemos voltar à casa!

- Você é quem manda Mogiana! Ela apressa-se em sair do rochedo para examinar as redondezas e certificar-se de que não há viva alma por ali, pois agora a segurança do rochedo esta sob sua responsabilidade. Ali e Hakin , saem e Mogiana ordena:

- FECHA-TE SÉZAMO!

E tudo volta a ser como era antes das palavras mágicas. Naquela noite Mogiana tem idéias que a deixaram radiante! No dia seguinte começa a pô-las em prática. Vai em visita às lojas de seus amigos, convida as famílias de boa reputação de toda a cidade e das cidades vizinhas para uma grande festa! Quando chega o dia da festa explica para Assam seus planos.

- Querido Assan! Tenho para ti grande carinho e afeição, sei que o mesmo tu me dedicas... Mas sei também que nem tu , nem eu somos felizes... Tu és um homem bom, justo e muito rico, mereces ter muitas esposas e uma grande prole Essa festa que organizei para nossos amigos é unicamente para que conheças muitas moças belas e de boa índole. E assim possas encontrar algumas mulheres interessantes que possam te agradar e tomá-las por esposas! Assan, concordou, desde que Mogiana sempre ficasse a seu lado. Ao que ela lhe respondeu:

- Já não sou uma mulher tão jovem, sempre trabalhei muito! Tenho-te um grande apresso, pois és um homem justo. Mas quero que compreendas meu desejo de voltar a viver livre! E ainda mais um pedido: Hakin deve ser , enquanto possível, protegido por Ali Babá que é um sábio e tem muitos ensinamentos e também tempo para passá-los ao nosso querido Hakin. Te prometo que muito virei visitá-los e levar Hakin para conhecer meu mundo! Assan concede a liberdade a Mogiana, que o abençoa com desejos de que Assan tenha muitos filhos e lhes ensine a justiça , a honestidade e a prosperidade.

Ali Babá vê enfim o olhar da bela e esperta Mogiana brilhar novamente!

II Capítulo

Na sua tarefa de conhecer o conteúdo verdadeiro do interior do rochedo Manara , ‘ passa seu tempo a vasculhar cada pote, saco ou baú que se encontra no interior do rochedo. Tenta decifrar os segredos de cada peça ali depositada e agora sob sua guarda. O que a atormenta muito , pois sabe que ali esta o fruto de muitas vidas ceifadas pela cobiça e violência de homens desprovidos de qualquer piedade ou compaixão por seus semelhantes.

Ali Babá , respira aliviado e passa a vida mais tranqüilo em sua casa na companhia de suas esposas e de Hakin que é muito curioso.

Manara, novo nome de Mogiana,tornou-se ausente e ter noticias dela só através de Ali Babá, anda tão ocupada com tanta novidade, que nada a tira do rochedo; Encontrou cadáveres em grandes potes de cerâmica ossos de vários tamanhos e idades guardados em vasos ocultos sob pilhas de sacos de couro de crocodilo num outro lado encontrou uma arpa enorme um cajado de madeira muito dura e antiga, uma cítara com inscrições que a fizeram suspeitar pertencer ao rei Salomão. Também tesouros e a coroa da rainha de Sabá, vasos egípcios e gregos, pergaminhos com planos de batalhas pertencentes ao grande Alexandre da Pérsia. Tapetes mágicos em todo canto, tecidos de tramas estranhas e estampas maravilhosas, sedas lãns. Baús cheios de espadas e adagas de vários tipos e tamanhos forjadas com metais estranhos e ricamente guarnecidas com ouro ou prata e pedras preciosas. Peles , arreios para camelos e cavalos ... Muito tempo levará Manara para conhecer todos os artigos que estão no interior do rochedo. Mas tem tido bastante atenção para com sacos de pele, que estão empilhados num dos nichos, como que cuidados com especial atenção; são sementes, bem embaladas e colocadas em lugar especifico para que se conservem por muito tempo. Manara chega a uma conclusão: Não é dela a responsabilidade de dar um fim àquele tesouro imenso, apenas de velar para que não seja usurpado por ambição e avareza. Afinal, se estão ali aqueles objetos , de alguma maneira estão protegidos, e se estivessem nas mãos de pessoas, mesmo que seus proprietários legítimos ainda estariam sendo motivo de grande ganância e cobiça, causando mais mortes pelo longo do tempo. Hakin sempre esta presente em seus pensamentos e o temor a assalta quando lembra que ele , mesmo sendo uma criança esteve dentro do rochedo.

Em outro canto encontrou artigos femeninos! Véus, tiaras, braceletes, mais jóias , tapetes aparadores com bandejas cheias de passas, tâmaras e figos secos, como que servindo um banquete sensual, sobre um grande e suntuoso tapete um naguilé real preparado para uso com os melhores perfumes . Almofadas, cortinas e muitos véus. Véus normalmente usados pelas odaliscas nas danças do ventre ou dos sete véus, penas, maravilhosas penas douradas, enfiadas nos trajes mais bonitos que ali se achavam espalhados pelo chão. Manara , jamais imaginara que pudesse existir algum pássaro com semelhantes penas e de tão grande porte, como sugeriam as penas. Deu-se ao prazer de ornamentar-se com o mais belo traje ali existente, lentamente foi colocando sobre seu corpo, peça por peça, véu por véu, pulseiras, tornozeleiras , colares, perfumes, anéis... Pés descalços , ensaia alguns passos de dança, senta-se sobre uma enorme almofada e começa a trançar seus longos cabelos. Descobre entre os véus espalhados pelo chão, um pequenino véu de cobrir o rosto. Examina-o com bastante calma, seus olhos brilham ainda mais quando percebe a estampa de um grande e magnífico pássaro, bordada a fios de ouro, com muita delicadeza , perfeição e detalhes dando a idéia de um ser mágico e poderoso! Imediatamente, Manara, associa o pássaro às penas douradas ali espalhadas acreditando que ele também faz parte dos tesouros do rochedo. Coloca o pequeno véu sobre seu rosto. Sente uma leve brisa que vai aumentando e rapidamente torna-se um vento poderoso e tudo começa a soltar a poeira acumulada pelo passar do tempo. Manara, silenciosa e possuída de medo, oculta-se num canto e vê o grande pássaro pousar junto dela com pose de submição. A esperta mulher entende a mensagem do pássaro . Aprocima-se dele com carinho e respeito. Agara-se ao pescoço da ave e monta sobre seu potente dorso, sua longa trança mistura-se às penas da ave. Quando sente-se segura e confortável aperta suas pernas sob as asas da ave que levanta súbito vôo em direção às paredes da rocha.

--- ABRE-TE SÉZAMO! Grita Manara assustada. E saem ganhando o céu noturno! Nessa noite os céus do Oriente receberam a figura mais bela e apaixonante que Alá permite aos homens vislunbrarem antes de enlouquecerem de paixão pela mulher que voa pelos céus !

Sherazade nesse instante demonstra grande alegria ! A imagem de Manara voando livre nos céus do Oriente, mais bela do que nunca, parece sair de seu próprio desejo.

O Emir emociona-se com tamanha imaginação e declara Sherazade, “Rainha”. Mesmo porque ela já esta na sua segunda gestação. Sendo que na primeira nasceu a linda e graciosa Yasmim! Que cresce cheia de beleza e sabedoria!

Stela Siebeneichler (sequência imaginária do conto "Ali Baba e os quarenta ladrões", no estudo do livro "As Mil e Uma Noites")

SABEDORIA

Se eu pudesse escrever
O perfume das flores,
O cheiro da terra fresca
Remexida no quintal
Terra nova de composteira.

Se eu pudesse escrever
A energia vital
Da terra molhada de chuva
Carregada de histórias
De flores, galhos, folhas, frutos.
De sangue , carne , ossos...
Que cumpriram seus ciclos
E dormem no húmus,
No cheiro da terra,
“Garota tímida”,
Que carrega em si a natureza.

Se eu pudesse escrever
O verde, o ocre, o olor, o sabor
Que essa terra virgem contém,
Seria , quem sabe,
Um tantinho sábia, para saber que
Vida eterna, é essa, que se encontra
Sempre jovem , na terra.

Stela Siebeneichler

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A escolha da Ratinha Linda (versão de O Casamento da Ratinha)

No sótão de um velho sobrado, construído num daqueles conjuntos habitacionais populares, vivia uma família de ratinhos: o pai, a mãe e uma filha, ratinha muito linda. Bem jovem, a Ratinha Linda, era esse o seu nome, não tinha preocupações em sua vida. Vivia correndo no telhado do sobrado de um lado para o outro, vendo tudo o que acontecia lá embaixo. A Ratinha Linda , mesmo sendo muito jovem, já estava em idade de se casar. As ratinhas se casam muito cedo mesmo e seus pais já estão ficando preocupados com a solteirice de uma ratinha tão bela como era a Linda.
--- Mãe Rata, diz o Pai Ratinho , você não acha que devemos encontrar um noivo muito forte , importante, poderoso e rico para casar com a nossa filha e lhe dar uma vida boa e importante, igual de uma princesa , que ela merece?
--- Sim, concorda a Mãe Ratinha, é claro que sim! E saíram a procura do ser poderoso, importante, rico e forte para noivar com a Ratinha Linda.
Começaram a procura visitando um castelo, o castelo do Conde Frankstein. Pois lá tem um laboratório e em laboratórios se encontram muitos ratos fortes, bem alimentados, com super poderes. Poderia estar lá esse ser extraordinário merecedor da mão da Ratinha Linda. E de fato lá encontraram o ratinho de laboratório. Contaram a ele o quanto era bela a Ratinha Linda e que estava na idade de se casar. O ratinho de laboratório interessou-se muito em conhecer tão linda ratinha e de pronto aceitou o convite para um jantar no sobrado. Seguiram em frente e numa loja de artigos importados da Índia, encontram dentro de uma gaiola de ouro , um ratinho da índia fazendo seus exercícios costumeiros, o acharam muito forte, e lhe falaram da Ratinha Linda, que está em idade de casar. O ratinho da índia ficou feliz com a oportunidade de conhecê-la e aceitou rapidamente ao convite para jantar no sobrado. Mas os pais da Ratinha Linda, ainda não satisfeitos continuaram a procurar por um rato muito importante, no centro da cidade. Entraram num palacete e encontraram na sala um lindo ratinho branco de estimação que brincava no ombro de um menino , filho do dono do palacete. Ficaram admirados com a importância de um ratinho que tem amizade com humanos e lhe contaram sobre a beleza da Ratinha Linda. Ele achou que ela seria uma bela companheira para as brincadeiras na sala e rapidamente aceitou ao convite para o jantar no sobrado.
Encontrar noivos com tantas qualidades não é tarefa fácil e os pais da Ratinha Linda já estavam contentes com os três pretendentes que encontraram, seguiram o caminho de casa e iniciaram os preparativos para o jantar que aconteceria no final da semana, no sobrado . E enquanto a noite do jantar não chegava, passavam o tempo falando à Ratinha Linda, sobre as qualidades dos pretendentes escolhidos .
Chegado o dia do tal jantar, a mãe achou que a Ratinha Linda não estava nem um pouco preocupada com a escolha que deveria fazer logo mais à noite. E lhe perguntou:
--- Ratinha Linda, você já decidiu qual dos ilustres candidatos vai escolher para ser teu marido? Ao que a Ratinha Linda respondeu:
--- Já Mãe, já escolhi sim. O rato mais rico, importante, forte, poderoso, jovem e romântico que vocês poderiam apresentar para mim! A mãe estranhou as qualidades que ela e o pai não haviam procurado nos pretendentes mas que Ratinha Linda havia descrito no escolhido. Quando a noite chegou os pretendentes foram entrando, um a um, e a sala ficou pequena para convidados tão importantes. O rato de laboratório ficou de queixo caído com a beleza da Ratinha Linda. O ratinho da índia, corria pela sala como se estivesse se exercitando em sua gaiola dourada, dizendo : HI HI HI ! . O rato branco de estimação disse que a Ratinha Linda seria a mais bela ratinha do palacete! O pai e a mãe, não cabiam em si de contentes.
Chegou a hora da escolha. Todos olhavam para Ratinha Linda, ansiosos esperando sua decisão . Finalmente a Ratinha Linda , realmente muito linda no seu vestidinho de seda rosa, com miosótis azuis entre suas orelhinhas pequeninas, um bonito laço de cetim na cintura e cheirando à flor de laranjeiras , tomou a palavra, dirigindo-se aos seus pais:
--- Meu pai, minha mãe. Eu sei que o rato de laboratório é muito poderoso, que o rato da Índia é muito forte e que o ratinho de estimação é bem importante. Mas as qualidades estão separadas em cada um deles. E eu já decidi que vou me casar com o Ratinho Ligeirinho, ele é aquele ratinho esperto, ligeiro, que conhece todas as manhas do gato, que sabe onde tem comida e que gosta de passear comigo todas as noites no telhado. É aquele ratinho que mora debaixo do assoalho da cozinha do sobrado ao lado . É com ele que me caso. Os convidados torceram os narizes com seus bigodinhos e lamentaram a má sorte. Afinal uma ratinha tão linda e tão esperta e sabida ao mesmo tempo, não se encontra fácil procurando marido.
--- Elas sempre tem pretendentes a sua escolha, disse o rato de laboratório, enquanto saía cabisbaixo do sótão seguido silenciosamente pelo ratinho da Índia e o ratinho de estimação .
Os pais, apesar de perderem a pose com a escolha da filha, ficaram felizes por saber que a Ratinha Linda, terá sempre, boa vida, segurança , fartura e alegria com o seu jovem , previdente e romântico Ligeirinho.

Stela L. Siebeneichler

domingo, 9 de novembro de 2008

CRIAÇÃO COLETIVA - Fábula OS MACACOS E A SINETA

Não se deve temer um simples ruído, quando a causa dele é desconhecida.
Um dia, um ladrão, fugindo de uma casa onde roubara uma sineta, foi morto e comido por um tigre que vivia no alto da montanha. Tombando-lhe da mão, sua sineta foi agarrada por alguns macacos, que de vez em quando faziam-na soar.
O povo da cidade, tendo descoberto que um homem foi morto, e ouvindo constantemente o repique da sineta, dizia que o demônio cruel, em sua cólera, o havia devorado. E fugiram todos os habitantes da cidade. (início de fábula retirada do Panchatantra*).

Os macacos se fartaram de tudo que havia nas casas.
Os habitantes se encheram de vergonha por temerem o som de uma simples sineta. Prepararam as armas e foram juntos e determinados em desvendar o mistério.
Cercaram a floresta de todos os lados. Mas encontraram lá no alto do morro a sineta dependurada no pescoço do macaco que estava dentro da boca do tigre. Mataram o tigre e o empalharam. Refletiram sobre tudo e invadiram outras cidades, usando a mesma fábula da sineta misteriosa: medo do desconhecido.

(Escrito a seis mãos : Onélia, Stella e Eduardo).

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

GÊNESIS - criações de alunos

Deus estava entediado com o infinito, com sua monotonia, sempre a mesma ausência de cor, som, movimento, nunca variava. E lá estava Ele, parado no espaço vazio sem fronteiras, sem distrações ao alcance dos Seus olhos, e olha que Sua visão alcançava longe. Estava dentro do nada, que se localizava antes do alfa, portanto muito antes do ômega, e é claro, antes do a do alfa. Como o nada era uma enorme escuridão, não fazia diferença ficar com os olhos abertos ou fechados. Deus mantinha os olhos fechados e ninguém nunca soube exatamente a razão. Alguns politeístas diziam que era porque ele tinha medo de, ao abrir encontrar outros deuses; Zeus brincando com seus relâmpagos; Baco girando sua cueca no ar com uma mão enquanto a outra segurava uma garrafa de vinho. Os ateus afirmavam que era porque ao olhar-Se no espelho, Sua imagem não refletiu como acontece normalmente com todos os seres viventes, mesmo com os inanimados, portanto não existe, no entanto o grande poeta falou a eles: respirem, estufem os pulmões e devolvam ao mundo o ar que nos faz viver e envelhecer, que não reflete, que apesar disso, existe, que não é Deus, este, não reflete e, como o outro, existe. Ficaram sem argumentos, depois de um tempo o poeta sumiu misteriosamente e voltaram a nega-Lo. Os agnósticos deram sua opinião em uma breve nota ríspida – se Ele está ou não com os olhos fechados, o problema é dele, só não venha me encher o saco! As especulações foram inúmeras. Depois todos chegaram ao consenso de que isso era uma coisa estúpida demais para se discutir. E acabou o assunto.
Foi então que Deus levantou-Se, estralou as costas, alongou os braços e com as mãos acima da cabeça como um pianista prestes a atacar o piano, pronunciou Sua vontade, e como chicotes bailando no ar, suas mãos lançaram-se para frente. Alguma coisa aconteceu no principio. Estavam criados, céus e terra. Em seguida veio a grande pergunte na solidão divina: o que fazer com isso agora?
A terra parecia um quadro surrealista, como os de Dali, as coisas estavam sem nexo, havia trevas sobre o abismo pra cá, o Espírito de Deus pairando sobre as águas pra lá. Deus tinha resolver aquela mixórdia. Foi então que, sentado em uma pedra que tinha o formato de uma tartaruga que tinha o casco com formato de uma pedra, que Deus disse: Eureka! E saiu pelado correndo e gritando pelo universo. A essa compreensão súbita do que fazer e como fazer, Ele chamou de luz, e, como não havia ninguém por perto, registrou a luz em Seu nome. Em seguida decidiu que ela era boa. Disse Deus: haja luz! E não é que houve mesmo. Depois chamou a luz, dia, e as trevas, noite. Não conseguiu pensar em nomes melhores, então manteve esses mesmos. Ao ver as águas boiando no ar, e depois de inúmeras vezes a areia entrar nos olhos e ser atropelado por enormes rochas, inclusive as que se pareciam com tartarugas, resolveu que criar a gravidade seria uma boa. E foi bom. Feito isso, delimitou o lugar de todas as coisas, isso é, as águas e a terra. Os céus e terra ficaram mais realistas no segundo dia.
No terceiro dia separou de vês as águas da terra, e fez o que mais gostava, dar nomes. A porção seca chamou de terra, e a outra de mares. A terra produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie, e arvores que davam fruto segundo ... enrolou a erva, fumou, e viu que era do bom. Com uma maçã suculenta que acabara de morder e um sorriso bobo no rosto, apreciava o crepúsculo enquanto mastigava com a boca aberta. Houve manhã e tarde no terceiro dia.
Deus percebeu uma tremenda gafe em sua criação, criou o dia e a noite antes do sol e da lua. Dizem que esse é motivo do riso das hienas, mas isso, assim como o tempo, é apenas lenda. Apesar da gafe, o primeiro impulso que O motivou a criar os tais luzeiros era para saber a hora do almoço e do jantar, e assim, melhorar sua alimentação, e ao mesmo tempo separou a luz das trevas. Deu sentido ao dia e a noite e ainda entrou em forma. Isso só poderia ser bom.
O quinto dia prometia. Nele seriam criadas uma das principais atrações desse circo, que chamamos de mundo. Criou, pois, seres viventes nas águas, que, conseqüentemente se molharam. Criou as aves, e que voem sobre a terra, sob o firmamento dos céus. Apesar das asas, o mundo, como tal, era, e é, uma grande gaiola, e não havia como sair, o fato de chegar a lua, a marte, a put ... a toda parte, apenas ressaltava os limites da prisão e o pesadelo da vida. Ao invés de expandirmos a alma, a retraímos e a atrofiamos em beneficio da competição, do desejo de ser melhor que o outro. Trocamos a beleza da alma pela mesquinharia de um jogo fútil. Mas deixemos essa reflexão de lado, como sempre deixamos. Onde estávamos mesmo ? ah sim, os seres ... bem, os seres vivos estavam na terra, prontos para comer, correr, se reproduzir e serem assados nos churrascos de fim de semana, mas para isso é preciso que o fim de semana exista. Vamos lá Deus! Ele pensou sobre o mundo que criou, a vida que deu aos seres, sobre o fim de semana e viu que tudo era muito bom.
Daí o veio o sexto dia, Ele já estava com dor nas costas, e sua ambição de criar estava sendo consumida pela sua preguiça. Estava cansado. Criar o mundo, as estrelas, o universo e todas as coisas, cansa. E com os olhos quase fechando fez o homem. Este ficou no bolso de Dele para terminar mais tarde, só que, descuidado, deixou cair. Foi parar na terra, fato que alterou seu pensamento. A sensação de superioridade afastou-o do sentido da vida à medida que evoluía. Mais a liberdade dada por Deus, o homem vivia no topo da hierarquia, isso, segundo ele, é claro. O homem é a imagem de Deus, mas para que serve o apêndice e as sobrancelhas em um deus ? ou em um homem ? Depois de acordar da cochilada pós-almoço, Ele foi terminar de fazer o homem, colocou a mão no bolso, ficou surpreso, não estava. Foi achar na terra, feio, arrogante e deformado em prol da queda. Oh céus! Pensou. Desanimado demais para fazer qualquer coisa, sentou, pegou a bacia de pipoca, relaxou, e está até hoje assistindo, vendo aonde esse mundo vai parar. Enquanto espantava uma mosca que rodeava seu ouvido divino, pensou: da próxima vez faço direito, sem acidentes, em cinco dias apenas ! Colocou sal na pipoca, jogou para cima e ela caiu certeira na boca, e viu que agora estava boa. Tudo estava bom. Bem. Quase.

Eduardo Ferreira