segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

JORNAL DAS OFICINAS

Na próxima quinta-feira, dia 18, a partir das 18h30min haverá lançamento do Jornal das Oficinas da Fundação Cultural de Curitiba. A festa será no Palacete Wolff - Praça Garibaldi, 08.
O jornal traz os melhores trabalhos selecionados das oficinas de 2007. Stela Siebeneichler, participante da Oficina da Biblioteca da Rua da Cidadania do Pinheirinho, orientada pelo poeta Amarildo Anzolim foi selecionada.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

TEXTO-FONTE 2 - encontro 11

A FORMIGA E O FLOCO DE NEVE
Numa certa manhã de inverno uma formiga saía para o seu trabalho diário. Já ia longe procurar comida quando um floco de neve caiu, prendendo o seu pézinho. Aflita, vendo que ali poderia morrer de fome e frio, a formiga olhou para o Sol e pediu:
- Sol, tu que és tão forte, derreta a neve e desprenda o meu pézinho?E o Sol, indiferente, respondeu:
- Mais forte que eu é o muro que me tapa. Então a pobre formiguinha disse:
- Muro, tu que és tão forte, que tampa o Sol, que derrete a neve, desprenda o meu pezinho? E o muro rapidamente respondeu:
- Mais forte que eu é o rato, que me rói A formiga, quase sem fôlego, perguntou:
- Rato, tu que és tão forte, que rói o muro, que tapa o Sol, que derrete a neve, desprenda o meu pézinho? E o rato falou bem rápido:
- Mais forte que eu é o gato que me come. A formiga então perguntou ao gato:
- Tu que és tão forte, que come o rato, que rói o muro, que tapa o Sol, que derrete a neve, desprenda o meu pézinho? O gato responde sem demora:
- Mais forte que eu é o cão, que me persegue. A formiguinha estava cansada e, mesmo assim, perguntou ao cão:
- Tu que és tão forte, que persegue o gato, que come o rato, que rói o muro, que tapa o Sol, que derrete a neve, desprende o meu pézinho?
- Mais forte que eu é o homem, que me bate. Pobre formiga! Quase sem força, perguntou ao homem:
- Tu que és tão forte, que bate no cão, que persegue o gato, que come o rato, que rói o muro, que tapa o Sol, que derrete a neve, desprenda o meu pézinho? O homem olhou para a formiga e respondeu: - Mais forte do que eu é a Morte que me mata. Trêmula de medo, olhando para a Morte que se aproximava, a pobre formiguinha suplicou:
- Ó Morte, tu que és tão forte, que matas o homem, que bate no cão que persegue o gato que come o rato que rói o muro, que tapa o sol que derrete a neve, desprende meu pezinho.E a Morte, impassível, respondeu:
- Mais forte do que eu é Deus, que me governa. Quase morrendo, então a formiguinha rezou baixinho:
- Meu Deus, tu que és tão forte, que governas a morte, que mata o homem que bate no cão que persegue o gato que come o rato que rói o muro, que tapa o sol que derrete a neve, desprende meu pezinho. E Deus, que ouve todas as preces pediu à primavera que chegasse com seu carro dourado triunfal enchendo de flores os campos e de luz os caminhos, e vendo que a formiga estava quase morrendo, levou-a para um lugar onde não há inverno e nem verão e onde as flores permanecem para sempre.

TEXTO-FONTE 1 - encontro 11

O CASAMENTO DA RATINHA

Fábula japonesa recontada por Lúcia Pimentel

No telhado de uma velha casa morava um casal de ratinhos. Eram pais orgulhosos de uma filha linda. O tempo passava e ela ficava sempre mais bonita até tornar-se a mais formosa e gentil ratinha daquelas redondezas. Seus pais tinham a certeza de não haver nenhuma outra tão linda.

Certo dia Papai Rato comentou com Mamãe Rata
-Não acha que chegou para nossa filha a idade de casar?
- Sim, é verdade, mas com quem ?
Papai Rato coçou a cabeça.
- Ela é tão bonita que será lamentável escolher um simples rato para seu marido. Penso que devemos procurar alguém que seja o mais PODEROSO DO MUNDO.
- Quem será esse ser Poderoso ?
Fiicaram os dois pensando.

Cansados de tanto pensar sem chegar a nenhuma solução, resolveram pedir um conselho ao Vovô Rato:
- Vovô Rato, o senhor é tão sábio! Pode nos ajudar? Então nos diga, quem é o alguém mais Importante e Poderoso deste mundo?
Vovô pensou um pouco, tossiu uma vez e disse:
- Vocês não sabem ? Ora, ora é o Senhor Sol. Sem ele não se tem luz! Com o mundo mergulhado na escuridão, ninguém faz nada. Portanto, ele é o mais importante.

- Viva,! Descobrimos o tão Poderoso! - falou alegremente Papai Rato. – Vamos logo procurá-lo e saber se pode casar com a nossa filhinha.
A Mamãe Rata também ficou entusiasmada. E levando a filha, saíram para falar com o SOL.

Ele brilhava despreocupado, jogando seus raios para todos os lados.
- Senhor SOL, o mais poderoso deste mundo, a nossa filha é a ratinha mais linda que existe. Teríamos muito gosto se o Senhor se casasse com ela.
O Sol, sorrindo, respondeu:
- Agradeço e fico muito honrado. Porém aviso que não sou o mais Poderoso deste mundo, nem o mais Importante.
Os ratinhos ficaram espantadíssimos.
- Por que? Será outro o mais Importante?
- Claro, ilumino a Terra, mas por mais que eu brilhe com todas as minhas forças, se aparecer o Senhor NUVEM, e me esconder, nada posso fazer. Assim, ele é o mais Poderoso!

Eles saíram à procura do Senhor NUVEM. Ele pairava no céu, embalado pela calma de seu sono da tarde.

- Boa-tarde, Senhor. Ficamos sabendo que é o mais Poderoso do mundo, portanto ficaríamos muito honrados se casasse com nossa filha. Olha só como é linda!
Abrindo lentamente os olhos, com voz sonolenta, ele falou:
- Realmente, ela é muito linda. Agradeço, mas não sou o mais Poderoso.
- Como ? Não e o mais ? Quem pode ser, então ?
- Pois eu me espalho por ai, entretanto se aparecer o Senhor VENTO, me carrega pra bem longe e eu fico sem ação. Por isso ele é o mais Poderoso.

Convencidos, os ratinhos sem demora foram em busca do Senhor VENTO. Foi encontrado soprando de leve os galhos das árvores. Estes balançavam, fazendo cair pelo chão uma chuva de folhas secas.
- Senhor VENTO! Sabemos ser o Senhor o mais Poderoso do mundo! Poderia casar-se com a nossa filha?
O VENTO interrompeu seu sopro leve de fazer chuva de folha seca:
- Fico feliz com a proposta, mas há um leve engano. Não sou o mais Poderoso do mundo.
- Não ?Então outro é mais Poderoso ainda que o Senhor?
- Sim, sim. Trata-se do Senhor MURO-DURO. Pois, por mais que eu sopre, não se mexe um tiquinho.

Mais que depressa eles voltaram para casa. Pararam em frente ao MURO-DURO.
- Senhor MURO-DURO, o mais Poderoso do mundo! O senhor há muito conhece nossa filha. Sabendo o quanto ela é bela não gostaria de casar com ela?
- é uma grande honra. Preciso, porém, dizer que existe alguém mais Poderoso ainda neste mundo, que não eu.
- Mais Poderoso ainda? – o casal de ratinhos, olhos arregalados, perguntou:
- Por favor, diga logo quem é?
- São, meus amigos, são...são os RATINHOS.
Eles estavam de rabo caído e boca aberta de espanto.
- Claro, por mais que eu fique firme e resista, nada posso fazer para enfrentar os terríveis dentinhos de um rato.Seus dentinhos afiados vencem sempre.

Tem toda razão! Como não percebemos isto antes ? Quem diria, nós, os Ratos, somos os mais Poderosos do mundo!
O casal, muito feliz, não demorou em conseguir, finalmente, um noivo digno para a filha. Um jovem RATINHO do telhado vizinho.

E assim, todos os ratinhos da redondeza foram convidados a comparecerem ao castelo.Eles comeram, beberam e cantaram felizes ate tarde da noite para comemorarem o casamento da mais linda ratinha.
Festa nunca esquecida, sempre comentada e recordada.

O jovem casal, acreditando ser o mais PODEROSO e o mais IMPORTANTE do MUNDO, viveu feliz, teve muitas ninhadas, por muito, muito tempo...

domingo, 9 de novembro de 2008

CRIAÇÃO COLETIVA - Fábula OS MACACOS E A SINETA

Não se deve temer um simples ruído, quando a causa dele é desconhecida.
Um dia, um ladrão, fugindo de uma casa onde roubara uma sineta, foi morto e comido por um tigre que vivia no alto da montanha. Tombando-lhe da mão, sua sineta foi agarrada por alguns macacos, que de vez em quando faziam-na soar.
O povo da cidade, tendo descoberto que um homem foi morto, e ouvindo constantemente o repique da sineta, dizia que o demônio cruel, em sua cólera, o havia devorado. E fugiram todos os habitantes da cidade. (início de fábula retirada do Panchatantra*).

Os macacos se fartaram de tudo que havia nas casas.
Os habitantes se encheram de vergonha por temerem o som de uma simples sineta. Prepararam as armas e foram juntos e determinados em desvendar o mistério.
Cercaram a floresta de todos os lados. Mas encontraram lá no alto do morro a sineta dependurada no pescoço do macaco que estava dentro da boca do tigre. Mataram o tigre e o empalharam. Refletiram sobre tudo e invadiram outras cidades, usando a mesma fábula da sineta misteriosa: medo do desconhecido.

(Escrito a seis mãos : Onélia, Stella e Eduardo).

terça-feira, 30 de setembro de 2008

RODA DE LEITURA : MIMI NASHI OICHI

Na próxima quinta-feira (09), ás 15 horas, a escritora, poeta e jornalista Marilia Kubota fará uma leitura do conto Mimi Nashi Oichi, refabulado pelo escritor Valêncio Xavier. A escritora é a convidada da semana do Ciclo Diversidades, da Roda de Leitura, uma das atividades da Casa da Leitura (Parque Barigui).
Mimi Nashi Oichi faz parte das histórias da tradição oral japonesa. A lenda integra a coletânea de horror japonesa Kwaidan, traduzida para o inglês pelo nipólogo Lafcádio Hearn, em 1905. O escritor Valêncio Xavier tomou conhecimento da estória de Mimi-Nashi-Oishi através da versão em espanhol, conforme nota na publicação original, de 1986.
Mimi Nashi faz parte do ciclo de narrativas chamado “saga do clã Taira (ou Heike)”. No século 12, duas famílias, os Taira e Minamoto (ou Geishe), lutavam pela posse do trono no Japão. Os Minamoto venceram e instituíram o shogunato –uma forma de administração similar ao feudalismo europeu. O shogunato durou de 1192 a 1868, com ressonâncias até o final da Segunda Guerra Mundial.
O extermínio dos Taira gerou muitas lendas na região em que seu as batalhas finais. Uma delas, a do monge Oichi, um jovem cego que se refugia num templo. Uma noite ele é chamado por um samurai para cantar a saga dos Taira para uma “platéia muito distinta”. Os monges descobrem que se tratam de fantasmas dos Taira e para protegê-lo, cobrem seu corpo com sutras (ensinamentos budistas). Quando o samurai volta para buscá-lo, leva apenas suas orelhas, que não haviam sido cobertas pelos escritos.

Valêncio Xavier, nascido em São Paulo (1933) desde os anos 60 morador de Curitiba era aficcionado pela cultura japonesa. Mimi Nashi Oichi foi publicado pela primeira vez junto com outra novela, O Mistério da Prostituta Japonesa, em edição do autor. A segunda edição está no livro O Mez da Grippe, da Companhia das Letras, de 1998.

Valêncio também publicou Maciste no Inferno, em 1983, O Minotauro, em 1985, 13 Mistérios + O Mistério da Porta Aberta Revista Quem, 1983 a 1990, todos republicados em O Mez da Grippe. Em 2001 a Companhia das Letras lançou Minha Mãe Morrendo e Menino Mentido e a Publifolha, Crimes à Moda Antiga, em 2004.
Marília Kubota integrou as antologias Crônicas Paranaenses (1999, crônica), Pindorama (2000, poesia), Passagens (2002,poesia), 8 Femmes (2007, poesia) e Antologia Brasileira do Início do Terceiro Milênio (2008, poesia), lançada em Portugal. Seu último livro é Selva de Sentidos (2008, poesia).
Desde 2005 orienta oficinas de criação literária. Em 2008 organizou o Concurso Nacional de Haicai Nempuku Sato. Mantém o blog Micropolis e trabalha com projetos de comunicação para a comunidade nipo-brasileira de Curitiba.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Texto-fonte - encontro 5

A literatura alimenta a alma. É um modo de conhecer outras realidades e culturas, um mundo inventado pela ficção. Ela nos conduz ao conhecimento de nós mesmos e dos outros. Um escritor inventa uma biografia emocional com um recorte histórico.
Miton Hatoum
RELATO DE UM CERTO ORIENTE

Romance escrito pelo amazonense descendente de árabes, Milton Hatoum Lançado em 1989 pela Companhia das Letras. Conta a história de uma família árabe que vivia em Manaus, abrangendo um período de 20 anos (1954 a 1974). O relato é feito por cinco narradores em forma de cartas, lembranças de depoimentos dados aos narradores e outros recursos. Todos tentam reconstituir a história da família comandada por Emilie, uma libanesa de formação católica e francesa.
Os relatos de uma filha adotada (sem nome), do filho mais velho de Emilie, Hakim, do amigo fotógrafo alemão Gustave Donner, do marido de Emilie (sem nome) e da amiga Hindie Conceição recompõem a trágica historia de Emilie.
A protagonista veio para Manaus com família (pais e irmãos) e casou-se com um libanês muçulmano. O casal conviveu sem conflitos religiosos e sobreviveu do comércio de tecidos e objetos decorativos (a loja Parisiense). O negócio prosperou e a família, que inicialmente habitava na loja mudou para um sobrado.
Era Emilie quem detinha o poder na família. Teve quatro filhos , três homens e uma mulher. Em sua casa, além dos quatro filhos, habitavam os agregados – empregadas e filhos adotivos (provavelmente filhos extraconjugais do marido ).
Uma das primeiras tragédias da vida de Emilie foi a gravidez da filha, Samara Délia, na adolescência. Samara é condenada pelos preceitos religiosos do pai. A mãe a protege, impondo-lhe a clausura e castidade para o resto da vida.. Embora tenha sido perdoada pelo pai, após o nascimento da neta, Samara não é perdoada pelos irmãos caçulas. A filha, Soraya Ângela nasce surdo-muda e é atropelada aos seis anos. A partir deste episódio, começam as brigas e o inicio da decadência da vida do clã, com a morte do patriarca e dispersão dos irmãos.
O tempo do romance não é cronológico. A ação se desencadeia a partir da volta da filha adotada à casa da infância. Ela tenta reconstituir as memórias de 20 anos de afastamento. A narradora não conhece toda a história, por isto lança mão dos relatos de parentes e amigos. A história toda só é conhecida lendo os relatos atentamente.
No trecho que vamos ler, o relato é uma lembrança de Hakim. Apresenta a relação da família com as agregadas. Observe como o filho vai recompondo a personalidade da mãe. Observe a atitude de Hakim no relato.

...devo dizer que as lavadeiras e empregadas da casa não recebiam um tostão para trabalhar, procedimento corriqueiro aqui no norte. Mas a generosidade revela-se ou esconde-se no trato com o Outro, na aceitação ou recusa do Outro. Emilie sempre resmungava porque Anastácia comia “como uma anta” e abusava da paciência dela nos fins de semana em que a lavadeira chegava acompanhada por um séqüito de afilhados e sobrinhos. Aos mais encorpados, com mais de seis anos, Emilie arranjava uma ocupação qualquer: limpar as janelas, os lustres e espelhos venezianos, dar de comer aos animais, tosquear e escovar os pelos dos carneiros e catar as folhas que cobriam o quintal. Eu presenciava tudo calado, moído de dor na consciência, ao perceber que os fâmulos não comiam a mesma comida da família, e escondiam-se nas edículas ao lado dos galinheiros, nas horas da refeição. A humilhação os transtornava até quando levavam a colher de latão á boca. Além disso, meus irmãos abusavam como podiam das empregadas, que às vezes entravam num dia e saiam no outro, marcadas pela violência física e moral. A única que durou foi Anastácia Socorro, porque suportava tudo e fisicamente era pouco atraente. Quantas vezes ela ouvia, resignada, as agressões de uns e de outros, só pelo fato de reclamar, entre murmúrios, que não tinha paciência para preparar o café da manhã cada vez que alguém acordava, já no meio do dia. Vozes ríspidas, injurias e bofetadas também participavam deste teatro cruel no interior do sobrado. Lembro de uma cena que me deixou constrangido e apressou a minha decisão de partir, e assim venerar Emilie de longe.
Estava lendo no quarto quando escutei um alvoroço na escada: gritos, choro, convulsões. Corri para ver o que acontecia, e vi um dos meus irmãos arrastando uma das nossas ex-empregadas com um bebê entre os braços. Emilie surgiu de não sei onde, apartando um do outro, e tentando acalmá-los. Ela acompanhou a mulher até o portão e, ao despedir-se dela, cochichou algo a seu ouvido. A mulher levou a criança à Parisiense e contou coisas a meu pai. Foi uma das poucas vezes que o vi cego de ódio, os olhos incendiados de fúria. Eu estava de pé, ao lado da janela da copa, olhando ora para a gravura de um livro de viagens, ora para uma abóbada de folhas cinzentas movimentando-se no quintal, quando o pai irrompeu na casa; fiquei estatelado ao divisar seu corpo alto e um pouco curvado surgir no vão da porta; levava enroscado no punho o cinturão, tal uma serpente negra e delgada; a sua maneira de subir a escada era inconfundível: dava passadas espaçosas, calcando o pé no degrau, e a mão esquerda roçava o corrimão: o atrito da pele com a madeira emitia, em breves intervalos, ruídos agudos, uma espécie de silvado: escutei com temor o corre-corre, o salve-se-quem-puder; e escutei também, pela primeira vez nos seus acessos de fúria, uma frase em português: gritou, entre pontapés e murros na porta, que um filho seu não pode escarrar como um animal dentro do corpo de uma mulher. Depois ele desceu e entrou na cozinha à procura de Emilie; o livro tremia em minhas mãos, e a gravura a bico de pena não era mais que uma teia informe de finos rabiscos; procurei Sálua no quintal, mas não a vi. Também não tive ímpeto de me afastar dali: o medo deixara-me sem ação e sozinho diante de um pai encolerizado. O bate-boca com Emilie foi tempestuoso e breve; que não era a primeira mulher que aparecia na Parisiense com o filho no colo, dizendo-lhe “esta criança é seu neto, filho do seu filho”; que não atravessara oceanos para nutrir os frutos de prazeres fortuitos de seres parasitas; que naquela casa os homens confundiam sexo com instinto e, o que era gravíssimo, haviam esquecido o nome de Deus.
- Deus, contra-atacou Emilie – Tu achas que as caboclas olham para o céu e pensam em Deus ? São umas sirigaitas, umas espevitadas que se esfregam no mato com qualquer um e correm aqui para mendigar leite e uns trocados.

O velho interrompeu subitamente a discussão e saiu sisudo, decepcionado antes com Emilie que com meus irmãos. Era inútil censurá-los ou repreendê-los Emilie colocava-se sempre ao lado deles: eram pérolas que flutuavam entre o céu e a terra, sempre visíveis e reluzentes aos seus olhos, e ao alcance de suas mãos.
Essa convivência de Emilie com os filhos me revoltava, e fazia com que às vezes me distanciasse dela, mesmo sabendo que eu também era idolatrado. Tornava-me um filho arredio, por não ser um estraga-albarda, por não ser vitima ou agressor, por rechaçar a estupidez, a brutalidade no trato com os outros. No meu intimo, creio que deixei a família e a cidade também por não suportar a convivência estúpida com os serviçais. Lembro Dorner dizer que o privilégio aqui no norte não decorre apenas da posse de riquezas.
- Aqui reina uma forma estranha de escravidão – opinava Dorner. – A humilhação e a ameaça são o açoite; a comida e a integração ilusória à família do senhor são as correntes e golilhas.
Havia alguma verdade nesta sentença. Eu notava um esforço da parte de Emilie para manter acesa a chama de uma relação cordial com Anastácia Socorro. As vezes bordavam e costuravam juntas, na sala; e ambas conversavam sobre um passado e lugar distantes, e essas conversas atraiam minha atenção. Permanecia horas ao lado das duas mulheres, magnetizado pelo desenho dourado gravado no corpo vítreo do narguilé, nas contas de cor carmesim que formavam volutas ou caracóis semi-imersos no liquido nacarado, e no bico de madeira que terminava num orifício delicado, como se fossem lábios preparados para um beijo. Mirando e admirando aquele objeto adormecido durante o dia, escutava as vozes, de variada entonação, a evocar temas tão distintos que as aproximavam. Anastacia impressionava-se com a parreira sobre o pátio pequeno, o telhado de folhas, suspenso, de onde brotavam cachos de uvas minúsculas, quase brancas e transparentes, e que nunca cresciam; ela fazia careta quando degustava as frutinhas azedas, sem entender a origem dos cachos enormes de graúdas moscatéis que entupiam a geladeira, o pomar das delicias, junto com as maçãs, peras e figos que meu pai trazia do sul, bem como as caixas de raha com amêndoas, os saquinhos de miski, as latas de tâmaras e de “tambac”, o tabaco persa para o narguilé. As frutas e guloseimas eram proibidas às empregadas, e , cada vez que na minha presença Emilie flagrava Anastácia engolindo às pressas uma tâmara com caroço, ou mastigando um bombom de goma, eu me interpunha entre ambas e mentia à minha mãe, dizendo-lhe: fui eu que lhe ofereci o que sobrou da caixa de tâmaras que comi; assim, evitava um escândalo, uma punição ou uma advertência, alem de deixar Emilie reconfortada, radiante de alegria pois para fazê-la feliz bastava que um filho devorasse quantidades imensas de alimentos, como se o conceito de felicidade estivesse muito próximo ao ato de mastigar e ingerir sem fim.
A lavadeira me agradecia perfumando minhas roupas; depois de esfregá-las e enxaguá-las, ela salpicava seiva de alfazema nas camisas, lenços e meias, e, quando eu punha as mãos nos bolsos das calças, encontrava as ervas de cheiro: o benjoim e a canela. Um odor de mistura de essências me acompanhava nos passeios pela cidade e desprendia-se do guarda-roupa aberto durante a noite, como se ali, fumegando em algum canto escuro, existisse um incenso invisível.
O odor não estava ausente da conversa entre as duas mulheres. O aroma das frutas do “sul” vaporava, se colocadas ao lado do cupuaçu ou da graviola, frutas que, segundo Emilie, exalavam um odor durante o dia, e um outro, mais intenso, mais doce, durante a noite. “São frutas para saciar o olfato, não a fome”, proferia Emilie. “Só os figos da minha infância me deixavam estonteada desse jeito.” O aroma dos figos era a ponta de um novelo de historias narradas por minha mãe. Ela falava das proezas dos homens das aldeias, que no crepúsculo do outono remexiam com as mãos as folhas amontoadas nos caminhos que seriam cobertos pela neve, e com o indicador hirsuto da mãos direita procuravam os escorpiões para instiga-los, sem temer o aguilhão da cauda que penetrava no figo ofertado pela outra mão. Ela evocava também os passeios entre as ruínas romanas, os templos religiosos erigidos em séculos distintos, as brincadeiras no lombo dos animais e as caminhadas através de extensas cavernas que rasgavam as montanhas de neve, ate alcançar os conventos debruçados sobre os abismos.”Mas tinha um outro caminho, ao ar livre”, dizia emocionada. Era uma escada construída pela natureza: pedras arredondadas pela neve escalonavam as montanhas e te conduzem quase sempre a um convento ou monastério. Lá do alto, a terra , os rios e o mar azulado desaparecem: a paisagem do mundo se restringe á floresta de cedros negros e ao rio sagrado que nasce ao pé de montanhas. Além dos muros que circundam os edifícios suntuosos e solenes, uma outra paisagem surge como um milagre: córregos ao meio de bosques, videiras, oliveiras e figueiras que se alastram não muito longe do claustro, da igreja e das celas onde os solitários, nutridos pela religião, alçam o vôo rumo ao céu como as asas de uma montanha.
Impassível, com o olhar vidrado no rosto de Emilie, Anastacia aproveitava uma pausa da voz da patroa, empinava o corpo e indagava: como é o mar? O que é uma ruína? Onde fica Balbek ? As vezes Emilie franzia a testa e me cutucava, querendo que eu elucidasse certas duvidas. É curioso, pois sem se dar conta, tua avó deixava escapar frases inteiras em árabe, e é provável que nesses momentos ela estivesse muito longe de mim, de Anastácia, do sobrado e de Manaus. Eu deixava de contemplar os arabescos do narguilé para ponderar sobre isso e aquilo, e tentava dar outro rumo ao assunto, uma reviravolta no tempo e no espaço, passar do Mediterâneo ao Amazonas, da neve ao mormaço, da montanha à planície. E, antes que Anastácia começasse a falar, Emilie largava as agulhas e os panos, e ordenava a mulher a preparar um café com borra e servi-lo em xícaras de porcelana chinesa, tão pequenas que o primeiro gole parecia o ultimo. Alguma coisa imprecisa ou misteriosa na fala de Anastácia hipnotizava minha mãe Emilie, ao contrario de meu pai, de Dorner e dos nossos vizinhos, não tinha vivido no interior do Amazonas. Ela, como eu, jamais atravessara o rio. Manaus era o seu mundo visível. O outro, latejava na sua memória. Imantada por uma voz melodiosa, quase encantada,Emilie maravilhava-se com a descrição da trepadeira que espanta a inveja, das folhas malhadas de um tajá que reproduz a fortuna de um homem, das receitas de curandeiros que vêem em certas ervas da floresta o enigma das doenças mais terriveis, com as infusões de coloração sanguinea aconselhadas para aliviar trinta e seis dores do corpo humano. “E existem ervas que não curam nada”, revelava a lavadeira, “mas assanham a mente da gente. Basta tomar um gole de liquido fervendo para que o cristão sonhe uma única noite muitas vidas diferentes.”
Esse relato poderia ser de duvidosa veracidade para outras pessoas, não para Emilie. No jardim tu ainda encontras os tajás e as trepadeiras, separadas das plantas ornamentais. Emilie plantou as mudas naquele tempo e, aconselhada por Anastácia, preparou um adubo com esterco de galinha e carvão em pó para ser misturado à terra, de sete em sete dias durante sete meses. O resultado é a espessa muralha verde musgo que cerca a fonte, e o matagal de tajás vizinho ao galinheiro. Lembro que ali existiam ninhos de cobra, e muitos galináceos pereceram, vitimas dos ofídios. Emilie deu pouca importância ao fato. “Prefiro conviver com cobras a ter que suportar uma ponta de inveja desse ou daquele”. Costumava dizer.
Anastácia falava horas a fio, sempre gesticulando, tentando imitar com os dedos, com as mãos, com o corpo, o movimento de um animal, o bote de um felino, a forma de um peixe no ar á procura de alimentos, o vôo melindroso de uma ave. Hoje, ao pensar naquele turbilhão de palavras que povoavam tardes inteiras, constato que Anastácia, através da voz que evocava vivencia e imaginação, procurava um repouso, uma trégua ao árduo trabalho a que se dedicava. Ao contar historias, sua vida parava para respirar: e aquela voz que trazia para dentro do sobrado, para dentro de mim e de Emilie, visões de um mundo misterioso: não exatamente o da floresta, mas o do imaginário de uma mulher que falava para se poupar, que inventava para tentar escapar ao esforço físico, como se a fala permitisse a suspensão momentânea do martírio. Emilie deixava-a falar, mas por vezes seu rosto interrogava o significado de um termo qualquer de origem indígena, ou de uma expressão não utilizada na cidade, e que pertencia à vida da lavadeira, a um tempo remotíssimo, a um lugar esquecido á margem de um rio, e que desconhecíamos Naqueles momentos de duvida ou incompreensão, de nada adiantava o olhar perplexo de Emilie voltado para mim: permanecíamos, os três, calados, resignados a suportar o peso do silencio, atribuído aos “truques da língua brasileira”, como proferia minha mãe. Aquele silêncio insinuava tanta coisa, e nos incomodava tanto...Como se para revelar algo fosse necessário silenciar. Para Emilie, talvez fosem momentos de impasse, de aguda impaciência diante da permanência da duvida. Mas era Anastácia quem rompia o silencio: o nome de um pássaro, ate então misterioso e invisível, ela passava a descreve-lo em minúcias: as remiges vermelhas, o corpo azulado, quase negro, e o bico entreaberto a emitir um canto que ela imitava como poucos que têm o dom de imitar a melodia da natureza. A descrição surtia o efeito de um dicionário aberto na pagina luminosa, de onde se fisga a palavra-chave; e como sentido a surgir da forma, o pássaro emergia da redoma escura de uma árvore e lentamente delineava-se diante de nossos olhos.

(Relato de um Certo Oriente, págs. 85-92)

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

GÊNESIS - criações de alunos

Deus estava entediado com o infinito, com sua monotonia, sempre a mesma ausência de cor, som, movimento, nunca variava. E lá estava Ele, parado no espaço vazio sem fronteiras, sem distrações ao alcance dos Seus olhos, e olha que Sua visão alcançava longe. Estava dentro do nada, que se localizava antes do alfa, portanto muito antes do ômega, e é claro, antes do a do alfa. Como o nada era uma enorme escuridão, não fazia diferença ficar com os olhos abertos ou fechados. Deus mantinha os olhos fechados e ninguém nunca soube exatamente a razão. Alguns politeístas diziam que era porque ele tinha medo de, ao abrir encontrar outros deuses; Zeus brincando com seus relâmpagos; Baco girando sua cueca no ar com uma mão enquanto a outra segurava uma garrafa de vinho. Os ateus afirmavam que era porque ao olhar-Se no espelho, Sua imagem não refletiu como acontece normalmente com todos os seres viventes, mesmo com os inanimados, portanto não existe, no entanto o grande poeta falou a eles: respirem, estufem os pulmões e devolvam ao mundo o ar que nos faz viver e envelhecer, que não reflete, que apesar disso, existe, que não é Deus, este, não reflete e, como o outro, existe. Ficaram sem argumentos, depois de um tempo o poeta sumiu misteriosamente e voltaram a nega-Lo. Os agnósticos deram sua opinião em uma breve nota ríspida – se Ele está ou não com os olhos fechados, o problema é dele, só não venha me encher o saco! As especulações foram inúmeras. Depois todos chegaram ao consenso de que isso era uma coisa estúpida demais para se discutir. E acabou o assunto.
Foi então que Deus levantou-Se, estralou as costas, alongou os braços e com as mãos acima da cabeça como um pianista prestes a atacar o piano, pronunciou Sua vontade, e como chicotes bailando no ar, suas mãos lançaram-se para frente. Alguma coisa aconteceu no principio. Estavam criados, céus e terra. Em seguida veio a grande pergunte na solidão divina: o que fazer com isso agora?
A terra parecia um quadro surrealista, como os de Dali, as coisas estavam sem nexo, havia trevas sobre o abismo pra cá, o Espírito de Deus pairando sobre as águas pra lá. Deus tinha resolver aquela mixórdia. Foi então que, sentado em uma pedra que tinha o formato de uma tartaruga que tinha o casco com formato de uma pedra, que Deus disse: Eureka! E saiu pelado correndo e gritando pelo universo. A essa compreensão súbita do que fazer e como fazer, Ele chamou de luz, e, como não havia ninguém por perto, registrou a luz em Seu nome. Em seguida decidiu que ela era boa. Disse Deus: haja luz! E não é que houve mesmo. Depois chamou a luz, dia, e as trevas, noite. Não conseguiu pensar em nomes melhores, então manteve esses mesmos. Ao ver as águas boiando no ar, e depois de inúmeras vezes a areia entrar nos olhos e ser atropelado por enormes rochas, inclusive as que se pareciam com tartarugas, resolveu que criar a gravidade seria uma boa. E foi bom. Feito isso, delimitou o lugar de todas as coisas, isso é, as águas e a terra. Os céus e terra ficaram mais realistas no segundo dia.
No terceiro dia separou de vês as águas da terra, e fez o que mais gostava, dar nomes. A porção seca chamou de terra, e a outra de mares. A terra produziu relva, ervas que davam semente segundo a sua espécie, e arvores que davam fruto segundo ... enrolou a erva, fumou, e viu que era do bom. Com uma maçã suculenta que acabara de morder e um sorriso bobo no rosto, apreciava o crepúsculo enquanto mastigava com a boca aberta. Houve manhã e tarde no terceiro dia.
Deus percebeu uma tremenda gafe em sua criação, criou o dia e a noite antes do sol e da lua. Dizem que esse é motivo do riso das hienas, mas isso, assim como o tempo, é apenas lenda. Apesar da gafe, o primeiro impulso que O motivou a criar os tais luzeiros era para saber a hora do almoço e do jantar, e assim, melhorar sua alimentação, e ao mesmo tempo separou a luz das trevas. Deu sentido ao dia e a noite e ainda entrou em forma. Isso só poderia ser bom.
O quinto dia prometia. Nele seriam criadas uma das principais atrações desse circo, que chamamos de mundo. Criou, pois, seres viventes nas águas, que, conseqüentemente se molharam. Criou as aves, e que voem sobre a terra, sob o firmamento dos céus. Apesar das asas, o mundo, como tal, era, e é, uma grande gaiola, e não havia como sair, o fato de chegar a lua, a marte, a put ... a toda parte, apenas ressaltava os limites da prisão e o pesadelo da vida. Ao invés de expandirmos a alma, a retraímos e a atrofiamos em beneficio da competição, do desejo de ser melhor que o outro. Trocamos a beleza da alma pela mesquinharia de um jogo fútil. Mas deixemos essa reflexão de lado, como sempre deixamos. Onde estávamos mesmo ? ah sim, os seres ... bem, os seres vivos estavam na terra, prontos para comer, correr, se reproduzir e serem assados nos churrascos de fim de semana, mas para isso é preciso que o fim de semana exista. Vamos lá Deus! Ele pensou sobre o mundo que criou, a vida que deu aos seres, sobre o fim de semana e viu que tudo era muito bom.
Daí o veio o sexto dia, Ele já estava com dor nas costas, e sua ambição de criar estava sendo consumida pela sua preguiça. Estava cansado. Criar o mundo, as estrelas, o universo e todas as coisas, cansa. E com os olhos quase fechando fez o homem. Este ficou no bolso de Dele para terminar mais tarde, só que, descuidado, deixou cair. Foi parar na terra, fato que alterou seu pensamento. A sensação de superioridade afastou-o do sentido da vida à medida que evoluía. Mais a liberdade dada por Deus, o homem vivia no topo da hierarquia, isso, segundo ele, é claro. O homem é a imagem de Deus, mas para que serve o apêndice e as sobrancelhas em um deus ? ou em um homem ? Depois de acordar da cochilada pós-almoço, Ele foi terminar de fazer o homem, colocou a mão no bolso, ficou surpreso, não estava. Foi achar na terra, feio, arrogante e deformado em prol da queda. Oh céus! Pensou. Desanimado demais para fazer qualquer coisa, sentou, pegou a bacia de pipoca, relaxou, e está até hoje assistindo, vendo aonde esse mundo vai parar. Enquanto espantava uma mosca que rodeava seu ouvido divino, pensou: da próxima vez faço direito, sem acidentes, em cinco dias apenas ! Colocou sal na pipoca, jogou para cima e ela caiu certeira na boca, e viu que agora estava boa. Tudo estava bom. Bem. Quase.

Eduardo Ferreira